14 de fevereiro de 2007

Lisboa de Montreal

Foto: Robson Barreiros

Aporto meu barco de sonhos às margens verdes do mar vítreo do teu olhar. Em Portugal das descobertas, a capital é sobrenome. No convés de sentimentos, estatuetas cristalinas.

As tais estátuas ululantes, esculpidas com o suor do tempo, atingem as correntes vasculares e deixam rastros de saudade medindo a distância em gotas.

Lágrimas de pétalas, chuva de suavidade. Temo sentir seu bálsamo antes do vento te levar, contornar seu corpo com neve canadense, refletir a voz do sol em nossas almas ao pingotear saudade.

Mas o sucesso brota entre as pedras, florescendo esperança com frutos de sabedoria. Esforço do tempo, escultura da vida.

5 de fevereiro de 2007

Fusolino sedentário



Fusolino não gostava de esportes, pois transpirar lhe enferrujava. Seu sedentarismo era conhecido por todos na vila dos parafusos.

Certo dia, enquanto repousava na sua casa de ferramentas, Fusolino foi chamado para uma reunião com a embaixada das chaves de fenda, onde recebeu uma solicitação de serviço imposta pelo Governo dos Metais.

Entre óxidos e fluidos, a maldição da chave de fenda o fez tremer na base. Para Fusolino, o resultado do trabalho seria um tanto estonteante.

Jurou nunca mais dedicar seu suor ao trabalho. Sentindo-se como um pião, mas afiado como a ponta de uma faca, enterrou-se na madeira com a maior cara de pau. Ali permaneceu durante décadas. Brando, aferrado, mas feliz.

Um dia seu repouso foi descoberto por um tal General Esmeril. Fusolino olhou para o céu, notou uma faísca cadente e desejou reencarnar em sua próxima vida como macarrão.