5 de fevereiro de 2007

Fusolino sedentário



Fusolino não gostava de esportes, pois transpirar lhe enferrujava. Seu sedentarismo era conhecido por todos na vila dos parafusos.

Certo dia, enquanto repousava na sua casa de ferramentas, Fusolino foi chamado para uma reunião com a embaixada das chaves de fenda, onde recebeu uma solicitação de serviço imposta pelo Governo dos Metais.

Entre óxidos e fluidos, a maldição da chave de fenda o fez tremer na base. Para Fusolino, o resultado do trabalho seria um tanto estonteante.

Jurou nunca mais dedicar seu suor ao trabalho. Sentindo-se como um pião, mas afiado como a ponta de uma faca, enterrou-se na madeira com a maior cara de pau. Ali permaneceu durante décadas. Brando, aferrado, mas feliz.

Um dia seu repouso foi descoberto por um tal General Esmeril. Fusolino olhou para o céu, notou uma faísca cadente e desejou reencarnar em sua próxima vida como macarrão.

22 de janeiro de 2007

A paixão

Paixão é uma forma sem forma de se abraçar o invisível.
Não a vemos, porém sentimos. E ao sentí-la, sonhamos acordados e escrevemos versos sem palavras.

9 de janeiro de 2007

A Chave

Feita de ferro fosco, sou só uma lata velha
Ao cheiro de maçaneta, meu mundo se assemelha

Ou paro no meu canto, ou boto algo a começar
Se a tranca abre logo, faço o mundo girar

Minha cabeça é chata, moro lá no Ceará
Posso até não ter dinheiro, mas já tenho meu lugar.

Pequeno grande sonhador

Gostaria de um dia ser grande. Não tão alto como o Everest, nem baixo como o hidrante da esquina. Queria inventar alguma coisa útil, seja um abridor de mares ou um encolhedor das margens de um rio, para ir de um lado até o outro e voltar quando quiser.

Não penso em ser quadrado como a colcha de retalhos da casa da minha bisavó, nem redondo como a lua cheia de chocolate e parecer uma bolacha com crateras. Não quero ser par-ou-ímpar nem pedra-papel-e-tesoura, mas gostaria de ter a forma da individualidade como cada nota musical que formula seu tom entre sustenidos e bemols.

Não me agrada reinventar um computador, tão eficiente que desvela problemas que não existiam antes de sua aparição, mas engenhar um solucionador de problemas seria bom. Talvez tão bom quanto um recarregador das baterias de um sorriso.

Também não quero ser preto claro ou branco escuro, ter cor do nada ou cor de tudo. Me agrada o círculo cromático completo, com seus inversos e complementares.

Acho difícil criar a fórmula da eternidade ou algo que nos faça viver para sempre. Talvez eu invente algo eterno enquanto viva, que viva e dure eternamente.

Porém tenho medo de um dia não conseguir ser grande, de não saber ser grande ou descobrir que um dia fui grande e não sabia.